Belgrado, encruzilhada de almas: o Cardeal Nemet e a longa paciência do diálogo entre Roma e Moscou

Belgrado, encruzilhada entre Roma e Moscou: como o Cardeal Nemet mantém vivo o diálogo católico-ortodoxo apesar da guerra na Ucrânia.

Via Equipe Bíblica
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Há algo de vertiginoso em contemplar o mapa da Europa no início de junho de 2026. Em Bruxelas, o debate continua sobre se o Patriarca de Moscou — um clérigo que, aos olhos de muitos, tornou-se um instrumento de uma ideologia belicista — deve ser punido. Em Roma, o novo papa, Leão XIV, mal se firmou após o pontificado frutífero, porém exaustivo, de Francisco. E em Belgrado, cidade ausente de qualquer cartão-postal de ecumenismo, um discreto cardeal tece pacientemente fios que a guerra na Ucrânia parece, a cada dia, ameaçar romper. Esse cardeal é Ladislav Nemet — o primeiro cardeal sérvio da história, arcebispo de uma capital predominantemente ortodoxa — e sua própria existência é um manifesto teológico: a de um homem condenado, por sua geografia e sua vocação, a nunca tomar partido, porque o seu lado é a unidade.

O momento é ainda mais crítico, pois o Patriarca Kirill de Moscou acaba de responder, em sua linguagem habitual de civilização escatológica, à encíclica. Magnifica Humanitas de Leão XIV. Essa resposta, previsível em sua forma, reflete uma cisão doutrinária provocada pela guerra: o Patriarcado de Moscou, sob sua liderança, endossou uma visão do conflito ucraniano como uma «guerra santa», que opunha uma civilização fiel a Deus a um Ocidente apóstata. Roma não se reconhece nisso. E, no entanto, as duas Igrejas não podem — teológica, espiritual e pastoralmente — resignar-se à ignorância mútua. É nesse nó górdio que o ministério de Nemet encontra sua plena profundidade.

O Legado Fragmentado: Quando a Guerra se Torna Teologia

A tentação da "guerra santa" e a tradição ortodoxa russa.

Para entender o abismo que se abriu entre Roma e Moscou desde fevereiro de 2022, devemos levar a sério a visão de mundo articulada pelo Patriarca Kirill e não descartá-la como mera propaganda. Sua posição — por mais profundamente perturbadora que seja — está enraizada em uma genuína tradição teológica, a da... sinfonia entre a Igreja e o Estado herdados de Bizâncio, e uma leitura escatológica da história na qual a Rússia ocupa uma missão providencialmente única. Quando ele declara que o conflito armado na Ucrânia é "o reflexo de um confronto mais global de civilizações", ele não está meramente servindo a um discurso político: está expressando uma cosmologia religiosa onde a luta temporal está ligada a uma questão metafísica concernente ao destino da humanidade.

A Igreja Católica não desconhece a noção de guerra justa — a doutrina Essa tradição remonta a Santo Agostinho e foi sistematizada por São Tomás de Aquino. Mas essa tradição insiste precisamente em critérios rigorosos: causa justa, intenção correta, autoridade legítima, proporcionalidade e uma perspectiva realista de sucesso. No entanto, o que o Patriarcado de Moscou promoveu não é apenas a guerra como entendida pela tradição católica; é algo mais próximo da guerra santa, onde a legitimidade não deriva de uma análise racional de meios e fins, mas de uma identificação mística entre a causa nacional e a causa de Deus. O apelo à "aniquilação da independência ucraniana" como um ato de piedade ortodoxa representa uma ruptura com toda a tradição patrística compartilhada pelas duas Igrejas.

É aqui que o Cardeal Yves Congar — cuja teologia ecumênica permanece uma referência essencial para a compreensão da relação entre Roma e as Igrejas Orientais — teria, sem dúvida, falado da diferença entre unidade e uniformidade, entre comunhão na verdade e fusão na identidade nacional. O Concílio Vaticano II, em seu decreto Unitatis Redintegratio, tiveram o cuidado de reconhecer nas Igrejas Orientais "seu próprio espírito e história" — mas esse elogio à diversidade legítima não pode validar uma teologia que abençoa as armas.

Belgrado: uma cidade entre dois mundos

É nesse contexto que a posição geográfica e eclesiológica de Belgrado assume um valor quase simbólico. A cidade é sede tanto de um cardeal católico quanto de um patriarca ortodoxo — Porfirije, figura proeminente do ecumenismo na ortodoxia balcânica, teólogo renomado por sua abertura ao diálogo. Isso não é uma coincidência, mas uma bênção: em uma cidade onde católicos e ortodoxos coexistem há séculos de maneiras ora tensas, ora frutíferas, a presença simultânea desses dois pastores cria uma configuração singular no panorama eclesiástico europeu.

O Cardeal Nemet sabe disso melhor do que ninguém. Missionário formado nos Balcãs, fluente em sete idiomas e tendo servido em Belgrado, Viena e Budapeste, ele personifica o próprio tipo de pastor preparado para acolher a alteridade. Quando declara que "a Rússia não deve ser excluída da família europeia", não se trata de ingenuidade diplomática, mas sim de uma afirmação teológica. Nenhuma Igreja, nenhum povo, nenhuma tradição espiritual pode ser definitivamente excluída do movimento de reconciliação que o Evangelho ordena. Mas essa convicção não significa aceitar o inaceitável: significa distinguir, com a paciência do discernimento, entre o povo russo e suas hierarquias, entre a tradição ortodoxa russa e sua atual instrumentalização.

A gramática do diálogo: o que o ecumenismo exige em tempos de guerra.

A oração como espaço de resistência

O apóstolo Paulo, em sua carta aos Efésios, escreve algo que deve ser ponderado por qualquer pessoa que pense que o ecumenismo seja assunto para comissões teológicas: «"Pois ele mesmo é a nossa paz, que fez dos dois povos um só, derrubando a barreira, o muro da inimizade."» (Efésios 2:14). Este «muro de separação» de que Paulo fala não é apenas o muro entre judeus e gentios na teologia paulina: é a figura de toda fronteira — nacional, denominacional, ideológica — que a humanidade ergue para se proteger do outro e que acaba por aprisioná-la. A guerra na Ucrânia não criou este muro entre Roma e Moscou: tornou-o visível, ergueu-o, armou-o.

Neste contexto, a oração comunitária — que Unitatis Redintegratio Identificada já em 1964 como "a alma do movimento ecumênico", esta oração torna-se um ato de resistência espiritual. Não resistência política, não protesto, mas uma recusa em deixar que a guerra dite as suas leis à liturgia. O Cardeal Walter Kasper, um dos grandes arquitetos do diálogo católico-ortodoxo nas décadas que se seguiram ao Concílio, insistia frequentemente neste ponto: o diálogo ecumênico não pode ser reduzido a negociações doutrinais; deve estar enraizado numa experiência espiritual partilhada, no reconhecimento mútuo da mesma fé batismal, mesmo quando as fórmulas dogmáticas divergem. Esta convicção assume agora a forma de um desafio existencial: como manter viva uma oração comum com uma Igreja cuja hierarquia suprema abençoa uma guerra de agressão?

A resposta de Nemet — e merece consideração cuidadosa — é distinguir entre diferentes níveis de interlocutores. O Patriarca Kirill não representa toda a Igreja Ortodoxa Russa. Belgrado ilustra isso concretamente: em fevereiro de 2025, o Patriarca Porfiryje recebeu uma delegação de alto nível da Igreja Ortodoxa Russa — não para apoiar a guerra, mas para manter canais de comunicação que as forças políticas tentavam fechar. É essa lógica que Nemet perpetua no âmbito católico: a ponte Belgrado-Roma não é um apoio a Moscou, mas uma resistência à mentalidade de bloco que levaria cada Igreja a escolher seu lado geopolítico.

Situação eclesiológica: que comunhão ainda é possível?

A questão teológica mais delicada neste contexto não é a da guerra justa — sobre a qual as posições católica e ortodoxa certamente divergem, mas podem se explicar mutuamente. A questão mais profunda é a da comunhão eclesial O que resta quando uma Igreja autocéfala parece ter fundido sua identidade com a de um Estado em guerra? Para Roma, que distingue cuidadosamente o magistério universal da Igreja do magistério de uma Igreja local, a questão tem uma resposta doutrinal clara: mesmo uma Igreja particular que se desvia doutrinariamente ou moralmente não deixa de ser Igreja no sentido teológico estrito — ela conserva seus sacramentos, seu episcopado, seus fiéis e seu chamado à conversão.

É precisamente isto que a Igreja Católica, desde o Concílio Vaticano II, reconhece nas Igrejas Orientais separadas: "os sacramentos, e em primeiro lugar o sacerdócio e a Eucaristia, que ainda as unem a nós por laços muito estreitos" (Unitatis Redintegratio, 15) Esse reconhecimento não é um endosso político; é um ato de fé eclesiológica. E é porque se baseia em um fundamento doutrinário — e não em afinidades culturais ou diplomáticas — que resiste à turbulência ucraniana. O diálogo não continua apesar da crise; ele continua. porque da crise, porque é precisamente aí que ela encontra sua razão de ser mais profunda.

O Cardeal Nemet personifica essa convicção com notável coerência. Quando o Primeiro-Ministro sérvio convidou o Papa a Belgrado, Nemet esclareceu imediatamente que essa visita não poderia ocorrer sem o acordo da Igreja Ortodoxa Sérvia — não por pusilanimidade, mas porque uma visita papal realizada contra a vontade da igreja majoritária do país constituiria não um gesto de abertura, mas um ato de provocação eclesiológica. Essa atenção às condições concretas do diálogo é um sinal de genuína maturidade ecumênica: o diálogo não é uma questão de cima para baixo, mas sim recíproca.

A Profecia de Belgrado: Rumo a uma Eclesiologia da Periferia

Cirilo e Metódio como paradigma

Não é insignificante que a conferência episcopal internacional, presidida por Ladislav Nemet antes de sua nomeação em Belgrado, tenha sido colocada sob o patrocínio dos Santos Cirilo e Metódio. Esses dois irmãos tessalonicenses, apóstolos dos eslavos no século IX, representam precisamente o que se poderia chamar de uma eclesiologia do meio Eles não eram latinos nem gregos, mas portadores de uma síntese que se recusava a reduzir o cristianismo a uma ou outra de suas expressões culturais. Inventaram o alfabeto glagolítico para que os eslavos pudessem rezar em sua própria língua — um ato tanto teológico quanto cultural, uma rejeição radical da ideia de que a fé deveria ser prerrogativa de uma civilização específica.

É nessa tradição que Nemet se encaixa, cuja biografia pessoal — nascido na Sérvia, educado na Hungria, tendo atuado em Viena — já é uma refutação viva de qualquer teologia de retirada da identidade. «"Católico"», Em sentido literal, "universal" significa universal — não uniformemente romano, mas aberto a todas as nações, todas as línguas, todas as tradições. Contudo, a Igreja Católica na Sérvia é uma minoria numérica num país onde a Ortodoxia é fundamental para a identidade nacional. Esta condição de minoria não é uma fraqueza teológica: é uma escola de humildade eclesial, um treinamento em diálogo que as igrejas majoritárias muitas vezes não têm a oportunidade de vivenciar.

Sofrer com, e não em vez de.

O profeta Ezequiel recebeu um dia esta estranha ordem de Deus: «Filho do homem, tu vives no meio de uma casa rebelde.» (Ezequiel 2:6). A tradução literal do hebraico é ainda mais física: "você está sentado no próprio coração dos espinhos". Essa imagem diz algo essencial sobre a vocação do Cardeal Nemet: não a de ignorar o conflito de uma posição confortável, mas permanecer no centro das tensões — entre Roma e Moscou, entre católicos e ortodoxos, entre o povo sérvio e sua Igreja — sem jamais fingir que a complexidade é simples ou que a paz é barata.

O cardeal Kasper, cuja teologia ecumênica permanece um princípio orientador, distinguiu prontamente entre o ecumenismo do convergência doutrinária — trabalho lento, paciente e por encomenda — e o ecumenismo do comunhão espiritual — mais imediato, e também mais frágil, porque envolve pessoas e não documentos. Na crise atual, é claramente este último que tem prioridade. Não se trata de esperar por uma hipotética comissão conjunta sobre a teologia da guerra para retomar o diálogo; trata-se de continuar a nos encontrar, a orar, a reconhecermo-nos uns aos outros como pessoas batizadas que buscam a face de Deus — mesmo quando a política torna isso escandaloso aos olhos do mundo.

Essa lógica — sofrimento com A Igreja Ortodoxa Russa em seu erro, e não se atrever a dar-lhe lições de fora — recorda a concepção paulina do corpo: «"Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele."» (1 Coríntios 12:26). A comunhão eclesial não é uma comunhão de concordância constante; é uma comunhão de responsabilidade espiritual compartilhada, onde até mesmo as falhas de um exigem as orações do outro. Isso não é ingenuidade: é eclesiologia.

A paciência como virtude teológica

O desafio de Nemet — e, por meio dele, o de toda a Igreja Católica em sua relação com a Ortodoxia Eslava — é, em última análise, uma questão de duração. As feridas infligidas pela guerra não cicatrizarão em poucos anos. O Patriarcado de Moscou, mesmo em um cenário pós-Syril, carregará por muito tempo as marcas de uma década de identidade eclesiástica e propaganda nacional entrelaçadas. A Igreja Ortodoxa Ucraniana, por sua vez, rompeu definitivamente com Moscou — e essa ruptura eclesiológica tem repercussões em todo o mundo ortodoxo, inclusive na Sérvia.

Nesse cenário fragmentado, a presença de um cardeal católico em Belgrado — presente desde dezembro de 2024 e inserido na arena política sérvia no verão de 2025, quando fez um apelo à calma durante os protestos anticorrupção — não é insignificante. Significa que a Igreja Católica tem um parceiro. âncora No mundo ortodoxo eslavo: não um observador externo, mas alguém que compartilha a vida desse povo, que sofre com suas tensões, que conhece seus patriarcas, seus sacerdotes, seus fiéis. Essa presença concreta é, em última análise, a condição primordial para qualquer diálogo autêntico. Não se dialoga com abstrações; dialoga-se com rostos.

E talvez seja aqui, nesta vocação à encarnação geográfica e espiritual, que a figura do Cardeal Nemet diga algo essencial para toda a Igreja: que o ecumenismo não se alcança nos salões de conferências internacionais, mas em cidades fragmentadas, em salões paroquiais onde duas tradições litúrgicas se encaram com uma desconfiança herdada de séculos passados, nos gestos pacientes daqueles que se recusam a deixar que o ódio político tenha a palavra final sobre a comunhão batismal. Belgrado não é Roma, nem Moscou, nem Jerusalém. Mas, na aurora do terceiro milênio, é talvez um dos lugares onde o futuro da unidade cristã na Europa está sendo construído, discretamente, mas verdadeiramente.

✝ Referências bíblicas

3 trechos · 3 livros
Ezequiel
📖 Códice — Livro Bíblico

Ezequiel · século VI a.C. · 1273 versículos

Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. (Ezequiel 36:26)

Visões apocalípticas, oráculos de julgamento e a promessa da restauração de Israel.

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Minoria
Católicos
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5
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1
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