- Uma Igreja que treina pastores para se oporem ao poder predatório.
- O clero está na linha de frente em um país onde o cuidado pastoral tem um preço alto.
- A obediência como antídoto para a fragmentação étnica e política.
- Uma igreja jovem enfrentando a perspectiva assustadora de uma eleição sem garantias.
- Lectio divina
- ✝ Referências bíblicas
Em 17 de agosto, na Catedral de Santa Teresa, em Juba, três diáconos ajoelharam-se diante do Cardeal Stephen Ameyu Martin Mulla para receber a ordenação sacerdotal, enquanto a poucos quilômetros de distância, nos corredores silenciosos do governo, o destino de um país, em jogo numa eleição que quase ninguém acredita que possa ser realizada pacificamente, ainda estava sendo negociado. Esse contraste quase insuportável define o cenário teológico onde a credibilidade da Igreja no Sudão do Sul está em jogo hoje: de um lado, políticos disputando o poder, chegando a recorrer à detenção arbitrária de rivais; do outro, um pastor convocando seus novos sacerdotes a fugirem justamente dessa mesma tentação do poder, porém envolta em vestes litúrgicas. Pois é precisamente isso que está em jogo quando o Cardeal Ameyu adverte seus filhos espirituais contra qualquer visão do sacerdócio como um "status de elite": ele não está proferindo uma fórmula piedosa baseada em circunstâncias, mas sim fazendo um diagnóstico espiritual de um país onde a função, seja qual for, muitas vezes se transforma em privilégio, espólio, distanciamento do povo.
O país mais jovem do mundo, independente há apenas quinze anos, prepara-se teoricamente para realizar suas primeiras eleições gerais em 22 de dezembro de 2026, um evento democrático prometido desde 2011 e adiado cinco vezes. Riek Machar, ex-primeiro vice-presidente e líder da oposição, permanece em prisão domiciliar em Juba desde março de 2025, enfrentando acusações de assassinato, traição e crimes contra a humanidade perante um tribunal especial que recentemente fechou suas portas ao público e à imprensa. Seu movimento, o SPLM-IO, advertiu que qualquer pessoa que tente registrar eleitores ou fazer campanha em áreas sob seu controle será considerada prisioneira de guerra. É nesse clima de suspeita generalizada, em que emendas ao revitalizado acordo de paz de 2018 foram aprovadas sorrateiramente para desvincular as eleições da conclusão de uma constituição permanente, que o Cardeal Ameyu está treinando seus padres em uma lógica de autoridade completamente diferente: a do serviço altruísta, a léguas de distância da lógica da conquista que corrói a classe política.
Uma Igreja que treina pastores para se oporem ao poder predatório.
O significado deste gesto pastoral deve ser compreendido dentro do seu contexto imediato. Quando um cardeal ordena três novos sacerdotes num país onde os bispos católicos, ao término da sua assembleia anual, acabaram de alertar para uma "iminente crise constitucional e de transição", independentemente de as eleições ocorrerem ou serem adiadas, cada palavra proferida durante a ordenação adquire um peso particular. O Arcebispo de Juba não se dirige a três jovens de forma abstrata: ele os envia para exercerem o seu ministério em paróquias onde a população espera que eles representem uma alternativa concreta aos líderes percebidos como monopolizadores de recursos e poder. O contraste entre a humildade exigida do sacerdote e o orgulho ostensivo de alguns dos líderes políticos do país não é uma mera coincidência temporal; é a própria essência do testemunho da Igreja nesta nação ferida.
Essa exigência de humildade encontra um eco marcante na Primeira Carta de Pedro, onde o apóstolo escreve às comunidades dispersas: «Vocês também, como pedras vivas, estão sendo edificados como casa espiritual para serem um sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo» (1 Pedro 2:5). Este texto, menos citado do que outras passagens sobre o sacerdócio, nos lembra que a função sacerdotal nunca consiste em dominar a construção, mas em ser integrado a ela como uma pedra entre outras, carregada pelo próprio Cristo, designado como a pedra angular. O Cardeal Ameyu, ao insistir na rejeição de qualquer «status de elite», está simplesmente reformulando essa teologia petrina para um contexto em que a tentação do elitismo clerical se funde perigosamente com a do elitismo político.
O Sudão do Sul está mergulhado em uma guerra civil desde 2013, que já ceifou centenas de milhares de vidas e deslocou milhões de pessoas, antes do acordo revitalizado de 2018 estabelecer um frágil governo de unidade entre o presidente Salva Kiir Mayardit e seu rival Riek Machar. A prisão de Machar em 2025 destruiu esse arranjo precário, reacendendo os combates em diversas regiões do país e levando o mecanismo de monitoramento do cessar-fogo a registrar, em janeiro de 2026, um aumento de 14% nas violações da trégua e de 43% nas hostilidades envolvendo signatários do acordo. É nesse clima de desconfiança crônica que a Igreja Católica, por meio da voz de seus bispos reunidos na província eclesiástica de Juba, lembrou em janeiro passado que "os cidadãos não são propriedade", condenando firmemente a retomada dos combates e exigindo que os beligerantes reconheçam a profunda aspiração do povo pela paz.
O clero está na linha de frente em um país onde o cuidado pastoral tem um preço alto.
O apelo do Cardeal Ameyu à humildade e à obediência não pode ser compreendido sem recordar um evento trágico ocorrido algumas semanas antes, a algumas centenas de quilômetros ao norte da fronteira, nas Montanhas Nuba: o Padre Youhanna Al-Amin, pároco de São Vicente em Kauda, foi assassinado em 19 de junho, juntamente com outras duas pessoas, por denunciar o roubo de medicamentos destinados à sua comunidade. Um mês depois, na mesma região, um pastor anglicano, Adel Idris Jongool, foi morto a tiros por combatentes de uma facção dissidente, enquanto outro líder religioso protestante foi sequestrado. Esses assassinatos, que fazem parte de um clima de perseguição direcionada ao clero cristão na África Central e Oriental, conferem uma ressonância particularmente grave ao apelo do Cardeal Ameyu ao serviço altruísta: servir nesta região do mundo não se trata de ocupar um cargo honorário, mas de potencialmente pagar com a própria vida pela fidelidade à missão.
Essa realidade ecoa a advertência que o próprio Jesus dá aos seus discípulos quando os envia em missão, em uma passagem muitas vezes negligenciada do Evangelho de Lucas: «Eu os envio como cordeiros no meio de lobos. Não levem bolsa, nem alforje, nem sandálias; e não cumprimentem ninguém pelo caminho» (Lc 10,3-4). Esse despojamento radical, essa ausência deliberada de qualquer proteção, delineia o retrato do sacerdote que o Cardeal Ameyu idealiza: um homem sem rede de segurança material ou simbólica, totalmente exposto à fragilidade de sua missão, o oposto exato da figura do sacerdote proeminente que algumas culturas eclesiásticas africanas por vezes permitiram que se enraizasse.
Desde a sua eleição, o Papa Leão XIV tem feito repetidos apelos relativos a esta região do mundo, referindo-se em janeiro passado à "persistente instabilidade política no Sudão do Sul, o Estado mais jovem da comunidade internacional", juntamente com o vizinho Sudão, que descreveu como "um vasto campo de batalha". No início de agosto, voltou a instar as autoridades a garantirem corredores humanitários e apelou à comunidade internacional para que apoiasse um cessar-fogo imediato, reiterando a sua proximidade espiritual a toda a população sudanesa. Esta insistência papal, longe de ser um mero exercício diplomático, lança luz sobre a formação que o Cardeal Ameyu proporciona aos seus novos sacerdotes: são chamados a tornarem-se, nas suas respectivas paróquias, agentes concretos de uma paz que Roma denomina "desarmada e desarmante", uma expressão que se tornou emblemática do pontificado de Leão XIV.
A obediência como antídoto para a fragmentação étnica e política.
O terceiro pilar da exortação do cardeal, a obediência, merece atenção especial no contexto do Sudão do Sul, onde as tensões intercomunitárias frequentemente se cruzam com as próprias divisões eclesiais. Um sacerdote formado na obediência ao seu bispo e à Igreja universal torna-se, nessa configuração, uma força unificadora que transcende os laços tribais que ainda estruturam profundamente a vida social e política do país. O próprio Cardeal Ameyu, do Condado de Torit, em Equatória Oriental, construiu toda a sua reputação eclesiástica nessa capacidade de transcender os laços clânicos, o que explica em grande parte por que o Papa Francisco o nomeou cardeal em 2023, o primeiro na história do país, precisamente no décimo segundo aniversário da independência do Sudão do Sul.
Essa dimensão unificadora da obediência sacerdotal encontra um fundamento bíblico marcante na Epístola aos Filipenses, onde São Paulo descreve o movimento kenótico de Cristo: "Embora sendo Deus em sua essência, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devesse se apegar; pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo" (Filipenses 2:6-7). Este texto, fundamental para qualquer teologia do sacerdócio, assume uma relevância premente em um país onde os líderes políticos, ao contrário, se apegam ferozmente aos seus cargos, onde o presidente Salva Kiir Mayardit alterou unilateralmente o acordo de paz para desvincular o calendário eleitoral da conclusão de uma constituição permanente, provocando a indignação da oposição, que vê isso como uma manobra para garantir sua reeleição. O esvaziamento voluntário de si mesmo que Paulo descreve em Cristo contrasta fortemente com esse apego ao poder que tem caracterizado o cenário político do Sudão do Sul desde a independência.
Seria redutivo, no entanto, ler a homilia do Cardeal Ameyu apenas como uma crítica implícita ao poder político. Ela aborda, antes de tudo, uma realidade interna à própria Igreja: a tentação, presente em muitas igrejas africanas jovens onde o clero goza de considerável prestígio social, de transformar a ordenação em ascensão social em vez de em conformidade com Cristo servo. Um sociólogo da religião que observasse o crescimento meteórico do catolicismo no Sudão do Sul, impulsionado por inúmeras vocações em um contexto de reconstrução nacional, entenderia facilmente por que um cardeal responsável pela formação clerical insiste nesse ponto com tanta coerência, como já fizera durante uma ordenação diaconal anterior, na qual exortou os candidatos a "sacrificarem-se" pelo ministério.
Uma igreja jovem enfrentando a perspectiva assustadora de uma eleição sem garantias.
A proximidade temporal entre esta ordenação sacerdotal e o anúncio, poucos dias antes, das renovadas preocupações expressas por parlamentares sul-sudaneses quanto à possibilidade de realização de eleições livres em dezembro, certamente não é uma coincidência na agenda pastoral do cardeal. Os próprios legisladores reconhecem que a persistente insegurança os impede de visitar suas bases eleitorais, comprometendo fundamentalmente a liberdade de movimento tanto dos eleitores quanto dos candidatos. Nesse contexto de vácuo institucional, a Igreja Católica, por meio de seus novos sacerdotes formados na humildade e no serviço, paradoxalmente se torna uma das poucas estruturas capazes de manter um vínculo de confiança com uma população que já não acredita nas promessas de seus líderes.
Essa enorme responsabilidade que pesa sobre os jovens sacerdotes ordenados, recém-saídos do seminário, evoca as palavras do profeta Jeremias, ele próprio chamado ainda muito jovem para uma missão que ultrapassava sua compreensão: «Ah, Senhor Deus, não sei falar; sou apenas um jovem!» O Senhor, então, respondeu: «Não digas: »Sou apenas um jovem’. Vai a todos aqueles a quem eu te enviar e dize-lhes tudo o que eu te ordenar. Não tenhas medo deles, pois eu estou contigo para te livrar” (Jeremias 1:6-8). Esse diálogo profético lança uma luz especial sobre a ênfase do Cardeal Ameyu na obediência: não se trata de submissão passiva a uma hierarquia eclesiástica abstrata, mas de confiança radical na promessa divina de acompanhamento, a única coisa capaz de sustentar um jovem sacerdote enviado ao coração de uma sociedade fragmentada.
O testemunho desta Igreja sul-sudanesa, ainda jovem institucionalmente, mas já testada pela perseguição e pela guerra, oferece à Igreja universal um espelho exigente. Enquanto tantos debates eclesiásticos ocidentais se concentram em questões de status, reconhecimento ou visibilidade na mídia, o Cardeal Ameyu nos lembra, com uma simplicidade quase brutal, que o sacerdócio católico, em sua essência mais pura, nunca é medido pelo poder que confere, mas pelo serviço que exige. Esta lição da África Oriental, num momento em que o país se prepara para uma eleição cujo resultado permanece altamente incerto, merece ser ponderada muito além das fronteiras do Sudão do Sul.
Lectio divina
«Vocês também, como pedras vivas, estão sendo edificados para serem uma casa espiritual, um sacerdócio santo.» 1 Pedro 2:5
Talvez você também ocupe uma posição, um título, uma responsabilidade que o diferencia dos demais. Já sentiu aquele orgulho silencioso o separando sutilmente daqueles a quem você deveria servir? A pedra viva não brilha sozinha; ela só se mantém de pé quando unida às outras pedras do edifício. O que restaria da sua missão se todos os sinais exteriores de poder lhe fossem retirados hoje? Ouse olhar, em silêncio, para o que então restaria.
Senhor, escolheste pedras brutas para construir a tua casa. Não queres mármore polido, mas carne frágil e obediente. Ensina-me a deixar-me moldar sem resistência. Tira de mim todo o desejo de ser visto, de ser temido, de ser exaltado. Faze-me uma pedra escondida, útil, colocada onde queres que esteja. Que eu sirva sem jamais buscar brilhar.
Uma mão de pedra repousa sobre uma cabeça curvada, e o silêncio da catedral transcende todos os discursos do mundo.
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