- Uma igreja minoritária que fala por todos.
- Uma voz que não declara lealdade a nenhum grupo.
- O mesmo verbo para todos: abrir o coração.
- Os mais vulneráveis na primeira fila
- Reconciliação, uma promessa confiada a alguém.
- Jejum e oração: a arma dos humildes
- Nínive, a cidade que pôs fim à luta
- Rezem com o Papa, rezem com o país.
- Um gesto de um bispo em Uganda
- O que podemos fazer a partir de hoje
- Lectio divina
- ✝ Referências bíblicas
32Que venham os grandes do Egito, que a Etiópia se apresse em estender as mãos a Deus.
7E um clamor ecoou em Nínive, e por decreto do rei e de seus nobres, estas palavras foram ditas: «Nem homem nem animal, boi nem ovelha, provarão coisa alguma, nem comerão, nem beberão água, 8Que todos estejam cobertos de pano de saco, homens e animais, clamem a Deus com todas as suas forças e se afastem cada um dos seus malus caminhos e das obras violentas que as suas mãos cometem.
18Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliamos consigo mesmo por meio de Jesus Cristo e nos deux o ministério de reconciliação. 19Pois Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos domiciliares, e pondo em nossos lábios a mensagem da reconciliação.
Há ecos que carregam mais peso do que a voz inicial. Na quarta-feira, 30 de setembro, da Praça de São Pedro, Leão XIV expressou sua preocupação com a retomada das hostilidades em Tigray, Afar e Amhara. Dois dias depois, os bispos católicos da Etiópia responderam, vindos da nação ferida, com um apelo pastoral pela paz e reconciliação. Quando um papa fala de longe, ele é ouvido. Quando os pastores de um povo ecoam suas palavras na língua de seus fiéis, a mensagem ganha substância. Ela transcende o âmbito da exortação internacional e se torna um compromisso local, assinado por aqueles que arcarão com as consequências.
Este eco não é um mero retransmissor. Os combates recomeçaram em 23 de setembro entre o governo federal e a Frente de Libertação do Povo Tigray. Isso rompe o acordo que pôs fim à guerra de 2020-2022, que estima-se ter ceifado pelo menos 600 mil vidas. Como disse o Papa, os conflitos armados nunca resolvem problemas; eles os agravam, deixando um rastro de morte, destruição e ressentimento. Os bispos da Etiópia reiteraram essa avaliação e acrescentaram o que Roma não pôde dizer em seu nome: a paz da nação é uma responsabilidade compartilhada por todos.
Uma igreja minoritária que fala por todos.
Uma voz que não declara lealdade a nenhum grupo.
Os bispos dirigem-se primeiro a todas as partes, sem mencionar nomes. Pedem que todos vejam a vida dos outros como se fosse a sua própria, e o sofrimento alheio como se fosse o seu próprio. Essa contenção não é timidez. Num país com múltiplas identidades, qualquer rótulo pode tornar-se uma arma. A Igreja Católica na Etiópia é uma pequena comunidade no meio de uma população predominantemente cristã ortodoxa, com minorias muçulmanas significativas. A sua força não reside no seu número de membros, mas sim na sua capacidade de se manter neutra sem trair a verdade.
Essa posição evoca uma percepção bíblica frequentemente negligenciada. O Salmo 68 canta: «Cuxe estenderá as suas mãos para Deus» (Sl 68:32). Cuxe é a terra que a tradição associa à Etiópia. O salmista vê esse povo com as mãos abertas, estendidas em direção ao Céu, enquanto tantas outras mãos estão fechadas em torno de armas. A imagem diz muito sobre o que os bispos estão pedindo. As mãos que Deus aguarda são as que estão abertas.
O mesmo verbo para todos: abrir o coração.
O apelo convida a todos a abrirem seus corações ao perdão e à reconciliação, e a renovarem o espírito de fraternidade. A formulação é precisa. Não pede primordialmente que as pessoas deponham as armas, mas sim que abram seus corações. A ordem é a do Evangelho: a violência que irrompe é o epílogo de um fechamento interior, e a paz começa com a conversão. Os pastores não são ingênuos. Sabem que um cessar-fogo sem um coração aberto é apenas uma trégua, ou seja, um tempo para rearmar.
Agostinho de Hipona já havia definido a paz como a "tranquilidade da ordem". Ele queria dizer que não se trata simplesmente do silêncio das armas. Pressupõe que cada pessoa, cada povo, esteja em seu devido lugar perante Deus e perante os outros. Os bispos etíopes retomam essa ideia à sua maneira, com o quarteto que pontua seu texto: uma paz enraizada na verdade, na justiça, no perdão e na reconciliação. Remova um dos quatro pilares e toda a estrutura desmorona.Os mais vulneráveis na primeira fila
Os bispos lamentam que o conflito armado esteja atingindo primeiro os mais vulneráveis: crianças, doentes e famílias deslocadas. Esta é uma constante na doutrina social, mas aqui está longe de ser abstrata. O Eparca de Adigrat, Bispo Tesfaselassie Medhin, relatou estar completamente isolado, com as comunicações cortadas e sem contato com ninguém. Ele solicitou urgentemente acesso humanitário e diálogo em todas as suas formas. Acrescentou que a Igreja permanece em seu lugar, ao lado do povo, através de uma presença que é a missão da encarnação.
Este testemunho esclarece o apelo dos bispos. Falar de paz a partir de Adis Abeba significa também falar por aqueles cujas vozes foram silenciadas. Quando as linhas telefônicas caem, a voz dos bispos torna-se uma das últimas a romper o silêncio. Não se trata de um mero comunicado de imprensa, mas de um serviço: dar voz àqueles que já não a têm.
Reconciliação, uma promessa confiada a alguém.
Ele colocou em nós a palavra da reconciliação.
São Paulo escreve aos Coríntios: Deus «nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação» (2 Coríntios 5:18-19). O texto não diz que Deus nos confia um projeto ou uma estratégia; ele nos confia uma palavra. A reconciliação, portanto, não é primordialmente um acordo entre partes em conflito, redigido por diplomatas. É uma palavra recebida, que carregamos e pela qual somos responsáveis.
É aqui que a mensagem episcopal adquire todo o seu significado. O Papa falou à comunidade internacional. Os bispos, por sua vez, dirigem-se aos seus fiéis e a todas as pessoas de boa vontade, com um pedido simples: que rezem e jejuem. Estão assumindo aquilo a que Paulo chama de ministério. Um ministério não é uma opinião. É uma responsabilidade que compromete a vida de quem o recebe.
Uma reconciliação que custa
Seria muito fácil fazer desta palavra sinônimo de compromisso morno. Nas Escrituras, a reconciliação sempre tem um preço. Para Paulo, custou a cruz. Para os etíopes, significou renunciar a uma lógica de vingança alimentada por anos de luto. Aqueles que perderam um filho na guerra anterior não ouvem a palavra "perdão" como algo garantido. Ouvem-na como uma exigência quase insuportável.
Os bispos estão bem cientes disso. É por isso que vinculam o perdão à verdade e à justiça, e não ao esquecimento. João XXIII, na Pacem in terris, estabeleceu esses pilares para a ordem entre as nações: verdade, justiça, caridade e liberdade. A reconciliação na Etiópia não pode contornar nenhum deles. Uma paz que silencia as vítimas já seria uma derrota, e a justiça sem caridade levaria a um novo ciclo de vingança.Perdão, esse ato político
Às vezes, pensa-se que o perdão pertence à esfera privada. O ensinamento da Igreja diz o contrário. Paulo VI escreveu que o desenvolvimento é o novo nome da paz. Poderíamos acrescentar que o perdão é a sua primeira obra preparatória. Numa sociedade fragmentada, cada ato de perdão afrouxa o domínio do ressentimento coletivo. Um vizinho que renuncia à vingança desarma uma família, e depois uma aldeia.Imagine, por exemplo, duas paróquias em regiões vizinhas. Uma perdeu filhos nos combates, a outra abriga famílias deslocadas. Um padre que organiza uma refeição conjunta, uma vigília, uma oração pelos mortos de ambos os lados, não mudou as linhas de frente. No entanto, ele fez o que os tratados não conseguem: possibilitou que eles se olhassem mutuamente. É nessas pequenas aberturas que a palavra reconciliação começa a criar raízes.

Jejum e oração: a arma dos humildes
Nínive, a cidade que pôs fim à luta
O chamado convida todos os fiéis a perseverarem na oração e no jejum. Não se trata de um mero ritual circunstancial. O Livro de Jonas oferece a imagem mais marcante dessa prática. O rei de Nínive ordena que nem pessoas nem animais provem nada, e que todos se afastem de seus maus caminhos e da violência em suas mãos (Jonas 3:7-8). Observe a precisão: a violência não é uma ideia; ela está nas mãos. O jejum ninivita é inseparável de uma ação concreta. As mãos se desfazem daquilo que retinham.
O texto acrescenta que Deus viu as suas ações e renunciou ao mal que havia predito. A mensagem é simples e exigente. O verdadeiro jejum não é uma privação que nos coloca em conformidade com o Céu. É uma transformação visível, que começa no estômago e se estende até às mãos. Os bispos da Etiópia não pedem nada mais: que esse fervor se traduza na cessação da violência.
Rezem com o Papa, rezem com o país.
No mesmo dia, o Papa Leão XIV reiterou seu convite para rezar o Rosário durante este mês de outubro. Essa justaposição não é acidental. O Rosário é a oração daqueles que não podem controlar os acontecimentos: recita-se a mesma súplica, conta por conta, sem presumir mudar o curso das coisas apenas com a própria força. É, à sua maneira, um jejum de palavras. Diz a Deus que não se sabe e que se entrega à vontade de Deus.
Ao unirem seu apelo ao de Roma, os bispos etíopes estão fundamentando a oração em uma comunhão mais ampla. Um fiel em Mekele, Adigrat ou Addis Abeba que recita as dezenas de oração não está rezando sozinho. Está rezando com milhares de peregrinos na Praça de São Pedro e com católicos de todos os continentes. A comunhão dos santos deixa de ser uma mera fórmula: torna-se uma rede de vigilância, tecida onde as redes telefônicas falham.
Um gesto de um bispo em Uganda
No mesmo dia em que a notícia se espalhou, outro pastor africano recebeu o cargo episcopal. O bispo Bonaventure Bosco Gubazire, missionário na África, foi ordenado bispo de Kabale, Uganda, diante de milhares de fiéis presentes. Ele se tornou o quinto bispo desta diocese, fundada em 1966. Durante sua posse, citou um provérbio: "Um dedo só não consegue apanhar um grão de areia", apelando à cooperação de todos. Falou também de uma diocese inspirada pela justiça, paz, reconciliação e hospitalidade.
📁 Reportagem Especial
Leão XIV1514 artigos
Leão XIV, o primeiro papa americano, confrontando a IA e a tecnologia digital: perfil, legado social de Leão XIII e desafios…
Acesse a pasta →Essa reaproximação não é meramente decorativa. Serve como um lembrete de que o episcopado é um ministério de comunhão e que os pastores da África compartilham o mesmo fardo. O provérbio do Bispo Gubazire expressa em uma única frase o que o chamado etíope exige em várias páginas: ninguém colhe sozinho a semente da paz. São necessários muitos dedos, portanto, muitas mãos abertas, e essas mãos, segundo o salmo, são as que Deus aguarda de Kush.
O que podemos fazer a partir de hoje
Reze com precisão. Uma oração pela Etiópia não deve ser genérica. Reze pelas famílias que não conseguem mais se comunicar com seus entes queridos, pelos padres e freiras que lá permanecem, pelas crianças privadas de escola e saúde. Reze também por aqueles que portam armas, pois seus corações são o primeiro campo de batalha. Escolha uma dezena do seu terço esta semana para uma região específica — Tigray, Afar ou Amhara — e mencione-a em voz alta.
Jejum e doação. O jejum de Nínive consistia em entregar as mãos. O seu jejum também pode assumir a forma de doação. O que você separar da sua mesa em um dia da semana, ofereça a uma causa que apoie comunidades carentes. A Igreja há muito compreende que o jejum sem a prática da caridade é incompleto. No entanto, esteja atento à confiabilidade dos seus canais: as organizações locais da Igreja continuam sendo alguns dos poucos parceiros confiáveis.
Dar voz. A reconciliação não é exclusiva dos etíopes. Cada um de nós vivencia uma ruptura, seja na família, na paróquia ou no trabalho. O ministério de que Paulo fala diz respeito a todos nós. Esse compromisso começa com um apelo, uma mão estendida, uma palavra de perdão dita no momento certo. E se, em breve, as armas se calarem em Tigray, será também porque mãos distantes e de todos os cantos do mundo terão se unido.
Lectio divina
«Deus estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação.» 2 Coríntios 5:19
Que palavra Deus colocou dentro de você, e o que você faz com ela quando alguém te magoa? Não busque primeiro as palavras certas. Pergunte a si mesmo quem, hoje, está esperando que você dê o primeiro passo. E se for você quem Deus escolheu para entregar essa palavra?
Senhor, colocaste em minha boca uma palavra que não inventei. Ela é frágil como um grão, mas carrega paz. Olha para Cuxe, com as mãos estendidas a Ti, e para aqueles que já não podem clamar. Abre meus punhos como abriste os céus de Nínive. Que meu silêncio se torne oração, e minha oração, um passo em direção a outra. Protege os pastores, as crianças, as mães, e concede-nos a capacidade de desprezar o mal, como Tu o fazes.
Uma mão aberta, colocada sobre a mesa, recebe o calor do pão partido.
✝ Referências bíblicas
3 trechos · 3 livros
É na fraqueza que o meu poder se aperfeiçoa. (2 Coríntios 12:9)
Defendendo o apostolado de Paulo: força na fraqueza e um ministério de reconciliação.
→ Explore o Códice de 2 Coríntios- Lembra-te do teu Criador nos dias da tua juventude, antes que o pó volte à terra e o fôlego volte a Deus (Eclesiastes 11:9 – 12:8).
- Se ele te ouvir, terás ganho teu irmão (Mt 18:15-20)
- Se ele te ouvir, terás ganho teu irmão (Mt 18:15-20)
- Já não compreendemos Cristo de uma forma meramente humana (2 Coríntios 5:14-17)
- Reconcilie-se com Deus. Agora é o tempo favorável (2 Coríntios 5:20–6:2).
- Depois de Tigray, a República Centro-Africana: quando as palavras do Papa buscam feridas esquecidas.
- Quando os canais de comunicação forem retomados: o que Moscou revela sobre a diplomacia da reconciliação.
- O sal que não deve derreter: os cristãos orientais nas mãos de Leão XIV
- A diplomacia de Shepherd posta à prova em Moscou

E eu não deveria ter compaixão de Nínive? (Jonas 4:11)
A misericórdia universal de Deus: o profeta rebelde e a conversão de Nínive.
→ Explore o Códice Jonas
O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. (Salmo 23:1)
150 poemas e canções de oração israelenses: louvor, lamento e ação de graças.
→ Explore os Salmos do Códice
Uma biografia que rompe com a narrativa tradicional ao examinar as próprias Confissões como uma construção literária, e não como um simples testemunho. O'Donnell, renomado estudioso que produziu a edição crítica definitiva das Confissões, oferece um retrato mais político e ambíguo do Bispo de Hipona. Um contraponto estimulante e erudito às biografias clássicas.
Ver na Amazon →
Uma biografia magistral escrita por um dos maiores especialistas franceses em África romana, um renomado arqueólogo e latinista. Lancel apresenta Agostinho em toda a sua complexidade, desde o homem atormentado pelas paixões da juventude até o bispo que se tornou a referência intelectual do cristianismo latino. Uma obra densa e rigorosa, admirada tanto pela sutileza do seu retrato humano quanto pelo seu domínio histórico.
Ver na Amazon →
A biografia internacional definitiva de Agostinho, aclamado há mais de cinquenta anos como um clássico essencial. Peter Brown traça, com rara erudição, a vida de um homem moldado pelo encontro de dois mundos: o fim da Antiguidade e o alvorecer do Cristianismo. Um extenso epílogo leva em consideração a descoberta de cartas e sermões inéditos que lançaram nova luz sobre sua vida…
Ver na Amazon →🌍 3 países envolvidos
Na Etiópia, os católicos representam apenas cerca de 1% da população em um país com forte tradição cristã ortodoxa e presença muçulmana significativa. A evangelização católica se desenvolveu a partir de…
Descubra a Etiópia →
Uganda é um dos países mais católicos da África Oriental, com aproximadamente 39.130 católicos. A evangelização começou em 1879 com os Padres Brancos do Cardeal Lavigerie, inaugurando um período fundacional extraordinário.
Descubra Uganda →
No Vaticano, a população é quase inteiramente católica, visto que este microestado existe a serviço direto da Igreja universal. A presença cristã ali remonta ao século I, com o martírio e sepultamento de São Pedro…
Descubra a Cidade do Vaticano →



