Uma ferida aberta não deve ser comentada: Roma, Lourdes e o dever de curá-la.

Após Lourdes, Leão XIV recebeu o bispo Verny: uma ferida aberta exigia ação. Ele falou sobre a proteção de menores e o cuidado com as ovelhas feridas.

Via Equipe Bíblica
20 Leitura mínima

Ezequiel 34:4

4Vocês não fortaleceram as ovelhas brigas, não cuidaram das coisas, não enfaixaram as feridas, não troxeram de volta as desgarradas, não procuraram as perdidas; mas as dominaram com violência e crueldade.

1 Coríntios 12:26

26E se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram comme ele.

Salmos 147, 3

3Cura os ossos do quebrantado e vai sarar as feridas.

Na sexta-feira, 2 de outubro, o Papa Leão XIV recebeu o Arcebispo Thibault Verny de Chambéry, presidente da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores. O Bispo Luis Manuel Alí Herrera da Colômbia, secretário da Comissão, o acompanhou. A audiência ocorreu seis dias após Lourdes, onde o Papa descreveu a violência sexual como uma "ferida ainda aberta". Uma ferida aberta não pode ser curada apenas com palavras; requer mãos, ferramentas e perseverança. Esta audiência, portanto, representa uma resposta inicial à questão levantada por Lourdes: quem a curará e como?

A escolha do momento é reveladora. Em 27 de setembro, o Papa ouviu sete vítimas durante duas horas, a poucos passos da gruta. Poucas horas depois, a assembleia plenária da Comissão foi aberta em Roma. Em 2 de outubro, seu presidente foi recebido em audiência. Daqui a três dias, em 5 de outubro, a Igreja na França comemorará o quinto aniversário do relatório que estimou o número de vítimas de violência em suas fileiras desde 1950 em 330.000. Essas datas formam uma única mensagem dirigida a toda a Igreja: a ferida não é recente, não se limita a um único país e sua cura ainda não está completa.

Não vou esconder de vocês que esta audiência está acontecendo em um clima tenso. Há controvérsias em torno da Comissão, e não vou me aprofundar em nenhuma delas aqui, por falta de provas concretas. Mas as Escrituras nos ensinam a ler as instituições como os profetas leram Israel, isto é, pelos seus frutos. Vejamos, portanto, o que o Papa disse, o que o Evangelho nos revela sobre isso e o que a Igreja deve fazer para curar essa ferida.

De Lourdes a Roma: um gesto em duas partes

Lourdes abriu um caminho

Pela primeira vez, um encontro com vítimas de abuso dentro da Igreja foi incluído no programa oficial de uma viagem papal à França. Sete pessoas foram recebidas a portas fechadas na residência episcopal, das 17h30 às 19h30. Seus perfis eram intencionalmente diversos: menores e adultos, mulheres e homens, vítimas de um padre, de uma faculdade, de uma ordem religiosa ou de um movimento. Ninguém falou em nome de uma associação. A escolha do local foi significativa: Lourdes é o santuário dos corpos que sofrem, onde a Igreja aprende há mais de um século a lidar com o sofrimento.

Naquela mesma manhã, perante os bispos franceses, Leão XIV havia falado do "flagelo doloroso" dos abusos cometidos contra menores por membros do clero ou em contexto eclesiástico. Ele os encorajou a prosseguirem seu trabalho de verdade, reforma e reparação. Naquela noite, segundo as vítimas, ele reconheceu diante delas a natureza "sistêmica" dessa violência. A palavra é pesada. Ele não acusa todos os padres, mas rejeita a explicação conveniente de "casos isolados": estruturas, silêncios e hábitos permitiram que o mal ocorresse.

Um detalhe diz muito sobre como esta viagem foi preparada. Os mosaicos do padre Marko Rupnik, um sacerdote esloveno acusado de abuso, foram cobertos a pedido do bispo de Lourdes. Algumas vítimas consideraram o gesto corajoso, embora também exigissem atualizações sobre o processo judicial em Roma. Elas levantam um ponto crucial: não se pode pedir a um povo que reze diante de imagens cuja autoria é contestada sem informá-lo sobre o andamento do sistema judiciário. O gesto simbólico exige atos de verdade; caso contrário, torna-se mera fachada.

Roma, algumas horas depois

No mesmo dia, em Roma, foi inaugurada a assembleia plenária da Comissão, concebida como um órgão de apoio às igrejas locais. Essa escolha de datas não foi acidental. O Papa sabe que a escuta durante uma noite em Lourdes só tem valor se servir de base para uma política duradoura: formação, protocolos, supervisão, apoio às vítimas e responsabilização dos líderes. Uma viagem é um evento; uma instituição é um compromisso de longo prazo. O próprio Senhor, em suas parábolas, elogia o administrador perseverante mais do que o impetuoso.

Em 16 de março, perante essa mesma Comissão, Leão XIV já havia estabelecido o princípio: a prevenção não é uma "tarefa opcional", mas uma "dimensão constitutiva da missão da Igreja". Esta declaração merece uma análise cuidadosa. Ela coloca a proteção dos vulneráveis não entre as obras de caridade acrescentadas quando o tempo permite, mas entre aquelas que fazem da Igreja a Igreja, no mesmo nível da pregação, dos sacramentos e do serviço aos pobres. Uma paróquia sem qualquer política de proteção seria, por essa lógica, uma paróquia incompleta.

O bispo Verny, nomeado em 5 de julho de 2025, foi escolhido por Leão XIV pela continuidade que representa: membro da Comissão desde 2022, ele vem de uma Igreja na França que superou a crise do relatório de 2021. O bispo Alí Herrera, psicólogo de formação e secretário desde março de 2024, viajou à Espanha este mês para se reunir com os escritórios diocesanos de proteção. Esses dois homens trazem, portanto, experiências nacionais muito diferentes, e a Comissão se beneficia muito desse intercâmbio. Enquanto uma Igreja conduziu investigações independentes, outra ainda está aprendendo a observar.

O que diz o público

Uma audiência papal não é uma decisão. É um sinal de confiança e uma forma de orientar prioridades. Ao receber seus líderes menos de uma semana após Lourdes, o Papa sinaliza que a Comissão não é uma vitrine nem uma extensão, mas sim o instrumento de uma transformação da governança. Agora, aguardamos para saber o que ele está pedindo especificamente: relatórios claros, avaliações das igrejas locais e assistência às regiões onde tais estruturas ainda não existem.

A confiança depositada no Papa não nos exime da responsabilidade. Pelo contrário, nos obriga a uma maior transparência, precisamente porque circulam controvérsias. Uma instituição que exige transparência das dioceses deve ela própria ser transparente. E quando surge uma controvérsia, a abordagem inspirada pelo Evangelho não é a de a ignorar nem a de alimentar avidamente: é a de procurar os factos, de afirmar o que está estabelecido, de reconhecer o que não está e de corrigir sem demora o que precisa de ser corrigido.

O que as Escrituras dizem sobre uma ferida aberta

A repreensão aos pastores

O profeta Ezequiel dirige uma das mais duras advertências da Bíblia aos pastores de Israel. Ele não os acusa primordialmente de crimes, mas de omissões: «Vocês não fortaleceram os fracos, não cuidaram dos doentes, não trataram os feridos» (Ezequiel 34:4). O texto enumera os atos básicos de cuidado e os torna a medida do ministério. Um pastor é julgado pelo que fez pelas ovelhas feridas, não pela beleza do seu rebanho.

Lida à luz da crise de abusos, esta passagem ilumina uma verdade dolorosa. A culpa não recaía apenas sobre os abusadores; recaía também sobre os pastores que se esquivaram da responsabilidade, protegeram, minimizaram ou simplesmente fecharam os olhos. A palavra "sistêmico" transmite isso. Designa uma cadeia de responsabilidade onde cada indivíduo pode ter pensado que não lhe cabia agir. Ezequiel não apresenta desculpas: "Eis que eu sou contra estes pastores", declara o Senhor, "que ele mesmo repreenderá as suas ovelhas".

Essa reprovação, porém, não é um beco sem saída. O mesmo capítulo promete que Deus buscará a ovelha perdida e curará as feridas. Em outras palavras, a reforma não é meramente um dever moral que a Igreja impõe a si mesma; é a participação de seus pastores no próprio cuidado do Bom Pastor. Uma comissão pontifícia só tem significado se ajudar cada bispo, cada superior, cada pároco a finalmente se tornar o pastor descrito pelo profeta.

Um único corpo que sofre.

São Paulo, escrevendo aos Coríntios divididos, estabelece um princípio que dá à crise dos abusos a sua dimensão eclesial: «Se um membro sofre, todos os outros sofrem com ele» (1 Cor 12,26). Esta não é uma imagem reconfortante, mas uma regra. Se a ferida infligida a uma vítima não afeta o corpo todo, então a Igreja não é um corpo, mas uma coleção de entidades separadas. As vítimas acolhidas em Lourdes expressaram a sua expectativa de ’ações«: exigem que aquilo que Paulo afirma se torne visível.

Essa solidariedade tem consequências muito concretas. Impede-nos de deixar a questão exclusivamente nas mãos de especialistas, como se a proteção de menores fosse assunto para advogados ou psicólogos. Também desfaz a ilusão de que apenas os países onde as investigações ocorreram são afetados. Quando Leão XIV falou de uma ferida "ainda aberta" na Espanha e, depois, na França, dirigia-se à Igreja universal. Onde não foi publicado nenhum relatório, não é por falta de feridas, mas talvez por falta de atenção.

Paulo acrescenta que os membros mais vulneráveis são os mais necessários e devem receber honra especial. Por muito tempo, a Igreja fez o contrário: honrou a instituição e tornou invisíveis as vítimas. Restaurar a ordem do Evangelho significa colocar os vulneráveis no centro, ouvi-los antes de se defender e aceitar que suas palavras, por vezes duras, são a principal fonte de reforma. O Papa fez isso em Lourdes, permanecendo sentado por duas horas ouvindo sete histórias.

Aquele que cura corações partidos

O salmo diz isso sucintamente: «Ele cura os de coração quebrantado e lhes sara as feridas» (Salmo 147:3). Este versículo não promete a erradicação do mal, mas um Deus que se inclina para ajudar. Ele lembra aos crentes que a cura não lhes pertence: eles são servos de um cuidado que vem de outro lugar. Isso os protege de duas tentações opostas. A primeira é acreditar-se o salvador das vítimas, com uma condescendência que ainda fere. A segunda é desesperar-se, como se nada pudesse curar.

As vítimas não pedem consolo fácil; pedem a verdade. O perdão que ignora a justiça é um falso perdão; a justiça sem compaixão torna-se um procedimento frio. Em Lourdes, o Papa reiterou que a Igreja deve continuar a busca pela verdade, justiça, perdão e reparação. A ordem destas palavras não é arbitrária. Não se pode pedir a uma vítima que perdoe antes que o dano tenha sido reconhecido, julgado e reparado. O perdão é uma dádiva gratuita que pertence a quem sofreu, nunca uma obrigação que a instituição possa exigir.

É aqui que o salmo adquire seu verdadeiro significado: se Deus cura corações partidos, cabe à sua Igreja estender-lhe as mãos. Isso requer tempo, profissionais qualificados, espaços acolhedores, reparação financeira e procedimentos canônicos claros. Nada disso é espetacular. Mas a santidade da Igreja também se mede por esses atos de cuidado, realizados sem testemunhas, dia após dia, por aqueles que foram feridos em seu nome.

Uma ferida aberta não deve ser comentada: Roma, Lourdes e o dever de curá-la.

Ações que curam a ferida

Verdade, justiça, reparação

A verdade vem em primeiro lugar. O relatório de 2021, apresentado aos bispos e religiosos da França por Jean-Marc Sauvé e sua equipe, teve esse poder: forneceu números, mecanismos e responsabilização. Mostrou que o fenômeno afetou aproximadamente 330.000 pessoas ao longo de setenta anos, incluindo mais de 210.000 vítimas de abusos cometidos por padres e religiosos. Esses números não são uma acusação. São uma brecha no muro do silêncio, por onde finalmente entrou ar.

A justiça vem a seguir. Ela é exercida primeiro na esfera civil, que a Igreja jamais deve obstruir, e depois na esfera canônica, que deve ser célere, transparente e acessível às vítimas. As cinco vítimas que escreveram ao Papa em 23 de setembro solicitavam especificamente informações sobre um processo romano. Este é o teste: não a qualidade da mensagem, mas a capacidade da instituição de informar a um indivíduo sobre o andamento do seu caso e por que ele está demorando tanto para ser resolvido.

Por fim, a reparação não pode se limitar a um gesto financeiro, ainda que tal gesto seja necessário. Ela exige reconhecimento público, apoio espiritual e psicológico, e oportunidades para que as vítimas contribuam para a prevenção. Várias delas se comprometeram com isso. Sua presença em órgãos da Igreja não é um favor: é uma oportunidade, porque elas sabem onde o sistema falhou e como corrigi-lo.

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Controvérsias: um teste de credibilidade

Voltemos a essas controvérsias que envolvem o público. Elas levantam uma questão fundamental: pode uma instituição encarregada da proteção resistir a questionamentos? O Evangelho responde com o exemplo de Jesus, que não temeu o escrutínio. "O que está oculto será revelado", disse ele. Uma Comissão que funciona bem não tem nada a temer diante de uma exigência de esclarecimentos, desde que as críticas se baseiem em fatos e não em suspeitas de oportunismo.

A Igreja deve, portanto, aprender a distinguir entre duas coisas. Há as críticas legítimas, expressas por vítimas, associações, fiéis ou jornalistas, que apontam atrasos, lentidão e inconsistências. Há também as manobras daqueles que desejam desacreditar qualquer política de proteção para retornar ao silêncio anterior. Devemos ouvir as primeiras, resistir às últimas e jamais confundir as duas. Essa lucidez exige discernimento e é um ato de caridade tanto quanto de prudência.

A credibilidade de uma Comissão é, portanto, conquistada por meio de três ações: publicar seu trabalho, avaliar o que não está funcionando e prestar contas àqueles a quem afirma servir. O relatório anual que ela apresenta ao Papa é um passo nessa direção. Mas ainda é preciso torná-lo compreensível para as igrejas locais, para que os fiéis em Bogotá, Chambéry, Madri ou Kinshasa saibam o que sua Igreja está realmente fazendo por seus filhos.

O que todos podem fazer

Proteger os menores não é responsabilidade exclusiva de Roma. É responsabilidade da paróquia, onde os catequistas são formados, da capelania, onde dois adultos estão sempre presentes, e do movimento juvenil, onde todos sabem a quem reportar qualquer comportamento inadequado. Um leigo atento vale mais do que um protocolo que ninguém lê. Trata-se simplesmente de fazer as perguntas certas: quem supervisiona, quem monitora, quem escuta, quem recebe o alerta? A seriedade de uma comunidade se mede por essas respostas simples.

Há também a oração, que não é um refúgio, mas uma forma de suportar o fardo. Orar pelas vítimas é recusar-se a deixá-las sozinhas. Orar pelos pastores é pedir-lhes a coragem de serem o que Deus espera deles. Orar pela Comissão é apoiá-la em uma tarefa árdua e muitas vezes ingrata. E orar por aqueles que erraram é pedir sua conversão sem jamais minimizar o que fizeram. Essas orações não substituem a ação: elas a tornam possível.

Uma ferida aberta exige paciência. As vítimas sabem disso melhor do que nós: a cura leva anos, tem seus contratempos e requer um compromisso inabalável. A Igreja também precisa perseverar. O que o Papa disse em Lourdes e o que reafirmou em Roma compromete uma geração. Cabe a nós não deixar que nossa atenção se disperse assim que as notícias mudarem.

Lectio divina

📜
Lectio — Leitura

«Procurarei a ovelha perdida, trarei de volta as desgarradas, curarei as feridas, fortalecerei as fracas.» Ezequiel 34:16

🧠
Meditação — Meditar

Quando foi que você desviou o olhar de uma ferida que preferia não ver? Quem, perto de você, está esperando ser procurado em vez de julgado? Você está pronto para deixar Deus curá-lo também, onde você permaneceu sozinho por tempo demais?

🙏
Oratio — Orar

Senhor, Pastor das ovelhas feridas, tu não desvias o teu olhar. Buscas os perdidos na noite, ajoelhas-te junto ao que manca. Tua mão traz óleo e ataduras, teus passos seguem o rastro de sangue. Perdoa o silêncio dos teus pastores, ensina-nos a paciência da enfermaria. Que a tua Igreja se torne uma casa de cura, e não um muro que esconde.

✨
Contemplatio – Contemplar

Uma mão aberta remove delicadamente a bandagem de uma ferida, e a luz da aurora se deposita sobre ela como óleo morno.

✝ Referências bíblicas

3 trechos · 3 livros
Salmos
📖 Códice — Livro Bíblico

Davi e vários autores · Séculos X-IV a.C. · 2461 versos

O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. (Salmo 23:1)

150 poemas e canções de oração israelenses: louvor, lamento e ação de graças.

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