- A manhã mais decisiva da história
- Duas mulheres, um Cristo ressuscitado e a lógica da alegria.
- Galileia, lugar de origem e promessa
- A missão como um dom antes de ser um dever
- A mentira dos sumos sacerdotes, um reflexo invertido da verdade da Páscoa.
- A correria da Páscoa numa vida normal.
- Como os Padres da Igreja e os grandes teólogos interpretaram esta passagem
- Vá você mesmo para a Galileia.
- Ressurreição num mundo que não quer acreditar
- Oração: Ofereça na manhã de Páscoa.
- Tudo começa no túmulo vazio.
- Sete gestos para uma semana de Páscoa
- Referências
- Lectio divina
- ✝ Referências bíblicas
Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus
8Imediatamente, direi a vocês o que fazerem comigo, e terei grande alegria nisso, e lhes falarei a respeito dos meus discípulos. 9E Jesus se apresenta ou dante deles e diz: "Saudações!" E eles, aproximando-se, beijaram-lhe os pés e o adoraram. 10Então Jesus diz: "Não tenham medo; vão e digam aos meus irmãos que vão para a Galileia; lá eles me verão."" 11Durante a viagem, alguns guardas entram na cidade e lembram-se dos princípios e das coisas sagradas que você fez. 12Eles se reúnem com seus ancestrais e, após deliberação, ingressam em um grande número de soldados., 13dizendo-lhes: «Digam que os discípulos de le vieram de noite e o levaram enquanto vocês dormiam. 14»E se o governador descobrir, nos o apaziguaremos e protegeremos vocês.” 15Nossos soldados aceitaram o dinheiro e fizeram o que lhes foi ordenado, e o barco que espalharam ainda é repetido entre os judeus até hoje.
Naquele tempo, quando as mulheres ouviram as palavras do anjo, saíram depressa do túmulo, cheias de medo e grande alegria, e correram para contar aos discípulos. De repente, Jesus as encontrou e disse: «Saudações!» Elas se aproximaram dele, abraçaram seus pés e o adoraram. Então Jesus lhes disse: «Não tenham medo. Vão e digam aos meus irmãos que vão para a Galileia. Lá eles me verão». Enquanto elas estavam a caminho, alguns soldados entraram na cidade e contaram aos chefes dos sacerdotes tudo o que havia acontecido. Depois que os chefes dos sacerdotes se reuniram e deliberaram, deram aos soldados uma grande quantia em dinheiro, dizendo: «Digam o seguinte: «Os discípulos dele vieram durante a noite, enquanto vocês dormiam, e o roubaram». Se isso chegar aos ouvidos do governador, nós lhe explicaremos tudo e livraremos vocês de problemas». Os soldados aceitaram o dinheiro e seguiram as instruções. E essa explicação tem sido transmitida entre os judeus até hoje.
Correndo em direção ao Ressuscitado: O Encontro que Muda Tudo
Quando o medo e a alegria se unem em missão — uma meditação teológica sobre Mateus 28:8-15 para o Tempo Pascal
Na manhã de Páscoa, duas mulheres correm. Elas ainda não entendem completamente o que está acontecendo, mas algo as impulsiona para fora do túmulo com uma energia que o texto de Mateus resume em uma frase marcante: medo e grande alegria. Este paradoxo não é um detalhe estilístico — é a própria essência da fé pascal. Este artigo é para todos aqueles que já correram em direção a algo maior do que si mesmos, para todos aqueles que oscilam entre o temor e a admiração diante do mistério de Cristo ressuscitado. Leremos esta passagem juntos, lentamente, como quem desdobra um tesouro.
Começaremos com o próprio texto para entender o que está acontecendo no túmulo vazio (parte 1). Analisaremos o encontro entre Jesus e as mulheres como um modelo para todos os encontros da Páscoa (parte 2). Em seguida, exploraremos três temas principais: a Galileia como contexto teológico, a missão como graça recebida antes do mandamento e as mentiras dos sumos sacerdotes como um reflexo invertido da verdade. Finalmente, veremos como tudo isso se traduz na vida cotidiana hoje, em 2025.
A manhã mais decisiva da história
Para entendermos Mateus 28:8-15, precisamos primeiro saber em que ponto da narrativa nos encontramos. Estamos no início do amanhecer do primeiro dia da semana. Na tradição judaica, a semana recomeça após o sábado — e Mateus explora esse simbolismo: algo radicalmente novo está começando. É o oitavo dia, por assim dizer, aquele que não foi inscrito no calendário da criação, aquele que inaugura uma nova temporalidade.
O Evangelho de Mateus provavelmente foi escrito entre 80 e 90 d.C., em uma comunidade judaico-cristã que vivenciava tensões significativas com o judaísmo farisaico pós-70. O Templo havia acabado de ser destruído, as sinagogas estavam sendo reconstruídas e as comunidades cristãs buscavam afirmar sua identidade. Esse contexto explica a ênfase de Mateus na controvérsia com os principais sacerdotes e anciãos (versículos 11-15): ele estava respondendo a uma calúnia persistente, a alegação de que os discípulos haviam roubado o corpo. Essa controvérsia não é insignificante — ela revela que a ressurreição não é uma questão de consenso, mas um escândalo que cada geração precisa enfrentar.
A passagem que estamos estudando (Mt 28:8-15) vem logo após a aparição do anjo às mulheres (versículos 1-7) e logo antes da grande viagem missionária para a Galileia (versículos 16-20). É um ponto crucial tanto em termos narrativos quanto teológicos. De um lado, o túmulo vazio e o anúncio angelical; do outro, a montanha na Galileia e a missão universal. Entre os dois, um encontro: Jesus vai ao encontro das mulheres no caminho.
Essa estrutura não é acidental. Mateus constrói aqui uma progressão em três movimentos: a revelação (o anjo), o encontro (Jesus) e a missão (a ida para a Galileia). E cada movimento aprofunda o anterior. O anjo diz: «Ele ressuscitou». Jesus diz: «Saudações». E, finalmente, «Ide». A ressurreição não termina no anúncio — ela se desdobra no envio.
É importante também destacar o papel absolutamente central das mulheres nesta narrativa. Maria Madalena e a outra Maria (provavelmente Maria, a mãe de Tiago, mencionada no capítulo 27) são as primeiras testemunhas. Num mundo em que o testemunho feminino não tinha validade legal, este é um detalhe extraordinário que ninguém teria inventado para dar credibilidade a uma história. São elas que recebem a notícia, são elas que correm, são elas que encontram o Cristo Ressuscitado, são elas que levam a notícia aos discípulos. A Igreja nasce de uma geração de mulheres.
O Salmo 117, versículo 24, que serve como aclamação aleluia na liturgia da Páscoa, fornece a música de fundo para esta manhã: Este é o dia que o Senhor fez.. Em hebraico, yom O dia é ao mesmo tempo um momento no tempo e uma plenitude de significado. Não é apenas mais um domingo: é O dia, aquele que o próprio Deus criou como um espaço para celebração e alegria. A liturgia da Igreja compreendeu essa conexão desde muito cedo: cada domingo é uma pequena Páscoa, um ensaio da primeira manhã, um convite à mesma jornada rumo ao Senhor Ressuscitado.
Duas mulheres, um Cristo ressuscitado e a lógica da alegria.
Vamos analisar mais de perto o cerne do texto. Versículo 8: Rapidamente, eles saíram do túmulo, tomados por medo e grande alegria, e correram para espalhar a notícia. Este verso é uma obra-prima de condensação emocional. O medo (Fobos) e alegria (personagem) coexistir — não alternadamente, mas simultaneamente.
Isso merece nossa atenção. Na psicologia comum, medo e alegria são mutuamente exclusivos. Ou se tem medo ou se tem alegria. Mas na experiência do sagrado, os dois convergem. Rudolf Otto, em sua famosa obra, afirma que o medo e a alegria são mutuamente exclusivos. O Sagrado, chama isso de mysterium tremendum e fascinans O mistério que aterroriza e atrai ao mesmo tempo. O túmulo vazio é exatamente esse tipo de experiência. É aterrorizante porque subverte tudo o que pensamos saber sobre a morte. É fascinante porque abre uma esperança que ninguém mais ousava expressar.
A corrida das mulheres também é significativa. Na antiguidade, as pessoas não corriam sem motivo — correr era uma atividade reservada a crianças, servos ou mensageiros urgentes. Mateus escolhe esse verbo para expressar uma urgência interior que as palavras comuns não conseguem descrever adequadamente. Algo extraordinário aconteceu e os outros precisam saber disso imediatamente.
Em seguida vem o versículo 9: Jesus veio ao encontro deles. A iniciativa aqui reside no Ressuscitado. Não são as mulheres que vêm a Ele — é Ele quem vem a elas. Este movimento de iniciativa divina permeará toda a teologia da Páscoa: o Ressuscitado não é uma estátua para ser contemplada de longe, Ele é um Ser Vivo que avança em direção aos seus discípulos. A ressurreição não é passiva — é dinâmica, missionária, relacional.
A salvação de Jesus — Chairete Em grego, frequentemente traduzido como "Saudações" ou "Alegrai-vos" — é a mesma palavra que abre a Anunciação em Lucas (Kaire, (Lc 1,28). Provavelmente não é coincidência. A salvação pascal ecoa a salvação da Encarnação. A mesma alegria que desceu sobre Maria de Nazaré agora desce sobre estas duas mulheres junto ao túmulo. A história da salvação possui uma coerência interna que as palavras gregas revelam com notável precisão.
Mulheres agarre os pés de Jesus e se prostram. Este gesto é importante: confirma a realidade corporal do Cristo Ressuscitado. Ele não é um fantasma, não é uma visão, não é um símbolo. Pode-se tocar seus pés. A fé cristã é encarnada — não despreza o corpo, mas o acolhe mesmo em sua transformação pascal.
Então Jesus disse: Não tenha medo. Esta é a fórmula clássica para a manifestação divina na Bíblia — Noli timere — que encontramos desde a Anunciação até a Transfiguração. Mas aqui, a injunção é seguida por uma missão concreta: Vá e conte aos meus irmãos. A palavra irmãos (adelphoi) é notavelmente terno. Após a traição de Judas, a negação de Pedro e a fuga dos discípulos, Jesus ainda chama seus discípulos de volta. seus irmãos. A ressurreição não é um tribunal. É uma reconciliação.

Galileia, lugar de origem e promessa
Por que a Galileia? Essa é a pergunta que merece uma resposta teológica verdadeira, e não apenas geográfica.
A Galileia, no Evangelho de Mateus, é o lugar dos começos. Foi lá que Jesus escolheu iniciar seu ministério (Mt 4,12-17), lá que chamou seus primeiros discípulos à beira do lago, lá que proferiu o Sermão da Montanha. Voltar à Galileia é, portanto, voltar às origens, às primeiras promessas, ao lugar onde tudo começou. É um ato de fidelidade: o Ressuscitado não nega o Jesus da Galileia. Ele é o mesmo.
Mas há mais. No capítulo 4, Mateus cita o profeta Isaías para descrever a Galileia: Galileia dos gentios, o povo que vivia em trevas, viu uma grande luz. (Isaías 8:23–9:1). A Galileia já é, nos escritos de Isaías, um lugar de revelação para os povos, um lugar de abertura universal. Não é Jerusalém, o coração do poder religioso judaico. É a periferia, a fronteira, o lugar onde os judeus vivem ao lado dos gentios. E é lá que o Ressuscitado estabelece o seu local de encontro.
Essa escolha é profundamente provocativa. Mateus constrói uma teologia da periferia: a revelação de Deus não vem necessariamente por meio de centros de poder, instituições religiosas estabelecidas, sumos sacerdotes e anciãos. Ela vem por meio de mulheres que correm, por meio de discípulos sem títulos ou prestígio, por meio de uma região desprezada. Se você se sente marginalizado — da Igreja, da sociedade, de si mesmo — este texto lhe diz que é precisamente ali que o Ressuscitado o convida a encontrá-lo.
O monte da Galileia, no versículo 16, fará eco ao monte das Bem-aventuranças. É o mesmo lugar simbólico onde Jesus ensinou sobre o Reino. A missão universal dos versículos 18-20 (Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações.A religião, portanto, nasce da continuidade direta dos ensinamentos de Jesus. A ressurreição não cria uma nova religião do nada — ela completa e universaliza o que já estava presente no ministério terreno de Jesus.
Há também uma dimensão escatológica nesse retorno à Galileia. Para as comunidades cristãs do primeiro século, a Galileia estava associada à expectativa da volta do Senhor. Como se o caminho para a Galileia fosse simultaneamente uma rota para o passado (as origens) e para o futuro (a Parusia). Ir para a Galileia significa entrar nessa tensão entre memória e esperança, que é o próprio ritmo da vida cristã.
A missão como um dom antes de ser um dever
Um dos problemas da interpretação cristã do envio missionário é transformá-lo muito rapidamente em um pesado imperativo moral. Precisamos nos manifestar. Precisamos testemunhar. Precisamos ir. Essa leitura não está errada, mas está incompleta — e essa incompletude pode se tornar tóxica.
Vamos analisar a estrutura do texto mais de perto. Antes de dizer Prossiga, Jesus disse Saudações. Antes da missão, há o encontro. Antes do envio, há a reconciliação.meus irmãosAntes do mandamento, há a graça. A missão não é o que os discípulos devem fazer para merecer o Ressuscitado — é o que eles não podem deixar de fazer depois de encontrá-lo.
Foi exatamente isso que Maria Madalena vivenciou no Evangelho de João (Jo 20:18): Eu vi! Isso não é uma obrigação, é uma explosão. Notícias como essa não podem ser contidas. O que aconteceu no jardim do túmulo é grande demais para caber em um único coração. A missão é a consequência natural do amor recebido, não de um código moral imposto.
Santo Agostinho compreendeu isso com notável precisão: Tu nos criaste para ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti. (Confissões, (I, 1). O movimento da missão é o próprio movimento da alegria pascal que busca ser compartilhada. É uma dinâmica de amor, não uma dinâmica de performance.
Isso tem consequências práticas consideráveis. Se a missão é, antes de tudo, uma dádiva, então ela começa com uma vida interior — com a comunhão com o Cristo Ressuscitado, com a oração, com os sacramentos. Não se pode dar o que não se recebeu. As mulheres no túmulo não decidiram ir proclamar a ressurreição depois de uma reunião de estratégia pastoral. Elas correram porque tinham visto, ouvido e tocado. A missão nasce da contemplação.
Este princípio também transforma nossa maneira de pensar sobre a evangelização. Evangelizar não significa, primordialmente, convencer ou persuadir — significa dar testemunho do que se recebeu, com a liberdade de quem não tem nada a provar. As grandes figuras da evangelização ao longo da história — Francisco de Assis, Teresa de Lisieux, Charles de Foucauld, Madre Teresa — não eram, antes de tudo, estrategistas da comunicação. Eram pessoas absortas pelo encontro com o Cristo Ressuscitado, e isso transparecia.
A mentira dos sumos sacerdotes, um reflexo invertido da verdade da Páscoa.
Os versículos 11-15 são frequentemente descartados rapidamente nos comentários, como se fossem um acréscimo polêmico de pouca importância teológica. Isso é um erro. Esses versículos são um espelho crucial que Mateus apresenta ao seu leitor.
O que fazem os sumos sacerdotes quando ficam sabendo da ressurreição? Eles não buscam a verdade. Eles orquestram a mentira. Reúnem os anciãos, deliberam e pagam os guardas para espalhar uma versão falsificada dos acontecimentos. Os discípulos vieram e roubaram o corpo enquanto estávamos dormindo. Note-se a ironia: guardas que admitem ter dormido dificilmente são testemunhas confiáveis. O argumento desmorona por si só.
Mas o interesse da passagem não reside no valor lógico da mentira. Reside na estrutura que ela revela. Em contraste com as mulheres que correm para compartilhar a verdade, temos os homens que correm para organizar a mentira. Em contraste com a alegria altruísta, temos o cálculo egoísta.uma grande quantia de dinheiroEm contraposição à missão livre, temos a corrupção mercenária. Matthew constrói dois mundos opostos e convida o leitor a escolher.
Esse contraste é particularmente evidente na questão do testemunho. As mulheres testemunham o que viram e vivenciaram, correndo o risco de não serem acreditadas (e, de fato, em Lucas capítulo 28, os apóstolos não acreditam nelas a princípio). Guardas e sacerdotes testemunham o que não viram, mediante pagamento. O testemunho verdadeiro é altruísta, vulnerável e, às vezes, mal interpretado. O falso testemunho é calculado, protegido pelo poder e pelo dinheiro.
Há aqui uma profunda reflexão sobre a relação entre o poder institucional e a verdade evangélica. Os sumos sacerdotes e anciãos representam o centro do poder religioso em sua época. E esse mesmo centro rejeita a ressurreição. Não por ignorância, mas por escolha. Eles sabem que o túmulo está vazio. Não querem que ninguém saiba disso. Porque, se o túmulo estiver vazio, sua autoridade desmorona. A ressurreição é subversiva não porque seja revolucionária em um sentido político, mas porque redistribui a autoridade: a autoridade suprema não reside mais no Templo, na Lei como eles a interpretam, nas decisões do Sinédrio — reside no Ressuscitado.
Matthieu esclarece que essa explicação é falsa. se espalhou entre os judeus até os dias de hoje. (versículo 15). Isto até hoje É uma marca de seu tempo — ele escreve para uma comunidade que ainda ouve essa calúnia nas sinagogas. Mas isso até hoje Essa narrativa também possui uma ressonância duradoura: cada geração produz suas próprias versões da mentira sobre a ressurreição. Hoje, não se diz mais que os discípulos roubaram o corpo — diz-se que a ressurreição é um mito, uma metáfora, uma projeção psicológica dos discípulos enlutados. As formas mudam; a estrutura da negação permanece a mesma.
A correria da Páscoa numa vida normal.
Vamos agora colocar tudo isso em termos concretos. A teologia não é um fim em si mesma — é uma ferramenta para viver melhor, com mais autenticidade e mais liberdade.
Na vida interior: O texto nos convida a abraçar tanto o medo quanto a alegria. Se você sentir medo diante do mistério da fé, não o reprima — é um sinal de que você está na presença de algo real. A fé fabricada em laboratório, desprovida de tremor, desprovida de admiração, é muitas vezes uma fé morta. Mas o medo deve coexistir com a alegria, não esmagá-la. Busque essa tensão vibrante.
Em relacionamentos: Jesus chama seus discípulos. seus irmãos Após suas traições e suas fugas, o Ressuscitado revela algo importante sobre como lida com nossas falhas. Ele não as apaga magicamente, mas também não as transforma em um julgamento final. Em seus relacionamentos fragilizados, essa lógica pode inspirar um caminho de retorno à outra pessoa — não negando o ocorrido, mas escolhendo reabrir uma porta.
Na vida profissional e comunitária: A estrutura da missão pascal (receber antes de dar, contemplar antes de agir) é um poderoso antídoto para o esgotamento pastoral e profissional. Muitos indivíduos comprometidos se esgotam porque dão de uma reserva vazia. O texto de Mateus os lembra de que o envio brota de um encontro. Qual é a sua Galileia pessoal — o lugar onde você encontrou o Senhor Ressuscitado pela primeira vez? Retornar a esse lugar regularmente não é uma regressão, mas sim uma fonte de renovação.
Na vida social e cívica: O contraste entre as mulheres testemunhas e os guardas corruptos levanta uma questão ética concreta. Em que tipo de mundo queremos viver? Um é construído sobre a verdade altruísta, o outro sobre mentiras organizadas e compradas. Esta não é uma questão abstrata em uma sociedade onde a desinformação é uma ferramenta política. A fé pascal é uma escola para discernir a verdade.
Na liturgia: Salmo 117 (Este é o dia que o Senhor fez.A liturgia nos lembra que cada domingo é um convite à alegria da Páscoa. Não uma obrigação de demonstração emocional – não somos forçados a ser alegres – mas um convite a entrar num espaço de significado que a liturgia mantém aberto para nós, mesmo nas semanas cinzentas.

Como os Padres da Igreja e os grandes teólogos interpretaram esta passagem
A leitura patrística de Mateus 28 é extraordinariamente rica e merece ser estudada em detalhes.
Origem (Comentário sobre Mateus, (Por volta da linha 248) vê na corrida das mulheres uma imagem da alma apressando-se em direção à contemplação. Ele interpreta o medo e a alegria não como estados emocionais contraditórios, mas como duas facetas da mesma experiência mística: o temor da infinitude de Deus, a alegria do seu amor. Essa leitura mística deu origem a toda uma tradição de interpretação alegórica na qual Maria Madalena se tornou o arquétipo da alma contemplativa.
São João Crisóstomo (Homilia sobre Mateus 90, (Final do século IV) enfatiza a condescendência divina no gesto de Jesus de ir ao encontro das mulheres. Para ele, o Cristo Ressuscitado poderia ter permanecido na montanha esperando — em vez disso, ele desce. Esta é uma imagem da humildade de Cristo, de seu compromisso inabalável após a ressurreição. Crisóstomo extrai uma aplicação direta disso para sacerdotes e bispos: o pastor deve ir ao encontro de seu povo, não esperar que venham até ele.
Santo Ambrósio de Milão (De Virginibus, (Século IV) está particularmente interessado nas mulheres como as primeiras testemunhas e vê nisso uma reabilitação divina do testemunho feminino, que a cultura da época marginalizou. Para ele, Deus escolhe intencionalmente as testemunhas que a história exclui, porque a ressurreição é em si uma revolução da ordem estabelecida.
Tomás de Aquino (Suma Teológica, (III, q. 55) analisa o padrão das aparições pascais segundo uma lógica rigorosa: por que Jesus não apareceu primeiro aos fariseus ou a Pilatos? Porque a fé pascal não é algo imposto, mas uma graça recebida. O Ressuscitado se revela àqueles que são capazes de recebê-lo, isto é, àqueles cujos corações já estão abertos pelo amor e pela fidelidade.
Hans Urs von Balthasar (Glória e a Cruz, (Vol. I) oferece uma leitura mais contemporânea que associa a ressurreição ao dom da beleza. Para ele, o encontro com o túmulo é uma experiência da kallos, da beleza divina, que cativa antes mesmo da argumentação. As mulheres não raciocinaram primeiro — foram cativadas. A fé pascal nasce do contato com algo belo, que precede toda demonstração lógica. Essa intuição renova profundamente a abordagem catequética: não se entra na fé cristã por meio de provas, mas pela experiência da beleza de Cristo ressuscitado.
A própria tradição litúrgica é uma leitura teológica do texto.’Exsultet, Esta magnífica canção da noite de Páscoa carrega a mesma tensão de Mateus 28: É a noite que purificou os pecados dos criminosos… Feliz é esta noite! Alegria e medo, pecado e graça, trevas e luz — todas essas polaridades são assumidas e transformadas na ressurreição.
A tradição oriental, particularmente a iconografia bizantina, frequentemente retrata o Miróforos (as mulheres que carregavam mirra) como os primeiros apóstolos — isapostolos Em grego, eles eram equivalentes aos apóstolos. A Igreja Oriental deu a Maria Madalena o título de’Apostolado dos Apóstolos, ecoando uma expressão de São Bernardo de Claraval (apostolorum apostolaEste título não é insignificante: significa que a missão universal da Igreja tem origem no testemunho destas mulheres junto ao túmulo.
Vá você mesmo para a Galileia.
A teologia só ganha vida quando se integra ao corpo, à vida cotidiana, à prática. Apresentamos aqui um caminho de meditação em sete etapas, inspirado no texto de Mateus 28.
Passo 1: Encontre seu túmulo. Antes de fugirem, as mulheres estavam no túmulo. O que em sua vida se assemelha a um túmulo — uma dor não resolvida, uma esperança abandonada, um relacionamento morto? Nomeie-o sem vergonha. É a partir daí que a vida recomeça.
Passo 2: Acolha o medo. Não tente suprimir o medo ou a tontura. Simplesmente acolha-os. O medo que você sente diante de Deus, diante da morte, diante do futuro, é uma porta de entrada para algo maior do que você. Respire.
Passo 3: Deixe a alegria entrar. A alegria da Páscoa não é uma emoção fabricada. É uma profunda certeza de que Nada pode nos separar do amor de Deus. (Romanos 8:39). Lembre-se de um momento em sua vida em que você experimentou essa certeza. Retorne a ele.
Passo 4: Corra. Qual é a urgência da sua fé neste momento? A quem você é chamado a recorrer? A um amigo em apuros, a uma comunidade isolada, a um compromisso abandonado? A ressurreição cria urgência — não a urgência ansiosa do esgotamento, mas a urgência alegre do amor.
Passo 5: Identifique o seu Galileu. Qual o lugar (geográfico, interno, relacional) onde você teve seu primeiro encontro impactante com Cristo? Planeje retornar a esse lugar — em uma peregrinação externa ou interna.
Passo 6: Ouça meus irmãos. Como Jesus te chama? Depois das suas traições, das suas fugas, dos seus silêncios — que nome ele te dá? Deixe esta palavra. irmão, irmã, Reformule sua autoimagem.
Passo 7: Discernir as mentiras que estão circulando. Quais são os Seu corpo foi roubado. Quais narrativas contemporâneas circulam ao seu redor e dentro de você? Que narrativas o impedem de acreditar na ressurreição, em qualquer forma que seja? Identifique-as para melhor deixá-las de lado.
Ressurreição num mundo que não quer acreditar
Seria ingenuidade ler Mateus 28 sem confrontar os verdadeiros desafios que este texto apresenta aos homens e mulheres de hoje. Esses desafios são, pelo menos, quatro.
Primeiro desafio: ceticismo histórico-crítico. Desde o século XVIII, a ressurreição tem sido alvo de suspeitas metodológicas no mundo acadêmico. O filósofo David Hume já havia levantado o problema: um milagre, por definição, viola as leis da natureza, e o testemunho humano é menos confiável do que a ordem natural. Essa objeção é séria e merece uma resposta séria — não manobras evasivas. A resposta cristã não consiste em negar a crítica histórica, mas em esclarecer seus limites. A história pode analisar vestígios, testemunhos e efeitos. Ela não pode, por definição, julgar a possibilidade ou impossibilidade de um ato de Deus. Como diz N.T. Wright em A Ressurreição do Filho de Deus, A ressurreição é o único evento que explica tanto o túmulo vazio quanto as aparições e o nascimento da Igreja. Buscar uma explicação alternativa é legítimo, mas ela deve levar em conta todos esses elementos simultaneamente.
Segundo desafio: a redução simbólica. Em muitos círculos religiosos progressistas, a ressurreição é reduzida a uma metáfora para a esperança: Jesus. ressuscitado nos corações de seus discípulos, em suas palavras que continuam vivas, em sua causa que triunfa sobre a morte. Essa leitura é espiritualmente atraente, mas não faz justiça ao texto. Mateus não escreve que as mulheres tiveram uma experiência interior no túmulo. Ele escreve que elas agarraram os pés de um homem que caminhava em sua direção. O realismo corporal da ressurreição é um elemento fundamental do Novo Testamento que a redução simbólica não pode apagar sem violência textual.
Terceiro desafio: a normalização da mentira. Os versículos 11 a 15 de Mateus 28 têm uma ressonância particularmente forte em nossa época. notícias falsas, da pós-verdade e da desinformação algorítmica. Vivemos em um mundo onde atores poderosos — como os sumos sacerdotes no texto — podem mobilizar recursos consideráveis para disseminar narrativas falsificadas. A fé pascal é um chamado à vigilância epistêmica: não acreditar em tudo, buscar fontes, distinguir testemunhos desinteressados de informações compradas. Não é coincidência que o cristianismo primitivo tenha enfatizado a noção de mártir — a testemunha — como figura central. Um mártir não pode ser corrompido porque dá a vida por aquilo que viu.
Quarto desafio: fadiga de anúncios. Muitos cristãos comprometidos, após anos de ativismo pastoral ou social, sentem-se profundamente cansados. Eles proclamaram, testemunharam e correram — e sentem que nada muda. Esse desânimo é humano e compreensível. A resposta oferecida pelo texto não é um encorajamento do tipo gerencial (Você consegue!), mas um reenraizamento na fonte: retornar à Galileia. Retornar ao encontro fundamental. A missão não se sustenta em seus próprios resultados, mas sim na presença do Ressuscitado. O que você não pode mudar, deixe para Cristo. O que Ele lhe pede para fazer, faça com os meios que você tem. Fidelidade não é o mesmo que sucesso.

Oração: Ofereça na manhã de Páscoa.
Senhor Jesus, ressuscitado do túmulo, Naquela manhã, você viu mulheres correndo. Você não os esperou em uma montanha impassível. Você foi ao encontro deles, na poeira da estrada. Venha nos conhecer também.
Muitas vezes somos como eles — cheio de medo e grande alegria, Já não temos certeza se o que estamos vivenciando é real., Carregando em nossos corações notícias grandes demais para nós.
Diga-nos também: não tenha medo. Chamem-nos de irmãos e irmãs., após nossas traições, nossos silêncios, nossas fugas. Sua ternura sempre nos precede.
Mostre-nos o nosso Galileu — o lugar de origem, o lugar da promessa, o lugar onde você ainda está nos esperando, não nos julgue, mas para nos enviar.
Conceda-nos a graça de correr, Não por medo de perder algo, não por dever penitencial, mas porque nós te vimos e que essa notícia já não tem qualquer peso em nossos corações.
Protege-nos de mentiras convenientes, O medo leva os guardas a silenciar a verdade. Conceda-nos a coragem para um testemunho altruísta., mesmo quando as pessoas não acreditam em nós, mesmo quando nossa voz está solitária.
Que todos os domingos sejam para nós. naquele dia você fez — Um espaço aberto, uma celebração, uma alegria. Não é a alegria daqueles que já não têm medo de nada, mas a alegria daqueles que sabem que o túmulo está vazio e que você sempre siga em frente.
Queremos ir para a Galileia. Guie nossos passos. E se tropeçarmos pelo caminho, Venha nos visitar novamente.
Você fez isso naquela manhã. Faça isso agora. Você sempre fará isso.
Amém.
Aleluia. Aleluia. Este é o dia que o Senhor fez — Que este seja para nós um dia de celebração e alegria. Aleluia.
Tudo começa no túmulo vazio.
Percorremos um longo caminho desde Mateus 28:8. Duas mulheres correndo, um Ressuscitado vindo ao seu encontro, uma missão recebida como um presente, a Galileia como local de encontro, uma mentira orquestrada como um contra-testemunho — e por trás de tudo isso, a pergunta mais simples e mais desconcertante da história da humanidade: será que isso realmente aconteceu?
Mateus não está tentando provar a ressurreição. Ele está testemunhando a ressurreição. Ele diz: mulheres correram, Jesus apareceu a elas, proferiu estas palavras, e as pessoas mentiram para silenciar esta verdade. Cabe a você escolher por qual história viver.
A fé pascal não é apenas mais uma convicção intelectual. É uma forma de habitar o mundo — um mundo onde o túmulo vazio tem a palavra final sobre todas as formas de morte, reais ou simbólicas. Um mundo onde até mesmo os discípulos que fugiram são chamados. irmãos. Um mundo onde a Galileia das periferias é melhor que a Jerusalém das potências estabelecidas.
Este texto é um chamado. Ele convida você a ir à Galileia — a retornar ao essencial, ao encontro fundamental, ao lugar onde tudo começou para você. E a partir novamente, impulsionado por essa tensão viva entre o medo e a grande alegria, que é a marca de tudo o que é verdadeiramente de Deus.
Sete gestos para uma semana de Páscoa
- Todas as manhãs desta semana, repita o versículo do Salmo 117 (Este é o dia que o Senhor fez.) antes de começar qualquer coisa, para descansar o dia com essa perspectiva pascal.
- Identifique alguém em seu círculo. discípulo fugitivo — alguém que se distanciou de um relacionamento, de uma comunidade ou até mesmo de si próprio — e envie-lhe uma mensagem simples que diga: Você é muito importante para mim, estou pensando em você.
- Reserve dez minutos para escrever em um caderno o que você túmulo presente — e ofereça-o em oração, sem buscar resolvê-lo imediatamente.
- Identifique os seguintes elementos em seu ambiente de informação: sumos sacerdotes contemporâneos — as narrativas organizadas que silenciam certas verdades — e decidimos conscientemente não transmiti-las esta semana.
- Ir fisicamente a um lugar que tenha sido para você um lugar de encontro com Deus ou com o melhor de si mesmo, mesmo que brevemente.
- Durante a missa de domingo, preste atenção especial ao momento de Saudações — que ele esteja no Pax vobis do padre, na paz trocada com os vizinhos — como um eco do Chairete do Ressuscitado.
- Antes de dormir, mentalmente mencione três pessoas por quem você correu esta semana — aquelas para quem você carregou o peso da vitória. novo Em qualquer forma: uma presença, uma palavra, um serviço.
Referências
Fontes primárias
- Evangelho segundo São Mateus, 28, 1-20, texto AELF (tradução litúrgica oficial francesa).
- Salmo 117 (116), versículo 24, tradução litúrgica AELF.
- Orígenes, Comentário sobre o Evangelho segundo Mateus, Série XII, Sources Chrétiennes n°162, Cerf, Paris.
- João Crisóstomo, Homilia 90 sobre Mateus, tradução francesa em Obras Completas, Vivès, Paris, 1865.
- Agostinho de Hipona, Confissões, I, 1, trad. Pierre de Labriolle, Les Belles Lettres, Paris, 1992.
Fontes secundárias
- N.T. Wright, A Ressurreição do Filho de Deus, Fortress Press, Minneapolis, 2003. (Obra fundamental para o debate histórico sobre a ressurreição.)
- Hans Urs von Balthasar, Glória e a Cruz, Volume I: Aparência, trad. frag. Robert Givord, Aubier, Paris, 1965.
- Rudolf Otto, O Sagrado, trad. fr. André Jundt, Payot, Paris, 1969. (Para o conceito de mysterium tremendum e fascinans.)
- Xavier Léon-Dufour sj, Ressurreição de Jesus e mensagem da Páscoa, Seuil, Paris, 1971. (Exegese clássica da narrativa da Páscoa em Mateus.)
- Marie-Joseph Lagrange op, Evangelho segundo São Mateus, Gabalda, Paris, 1923, reimpresso em 1948. (Comentário exegético, obra definitiva em francês.)
Lectio divina
""Vá e diga a meus irmãos que vão para a Galileia; lá eles me verão." (Mateus 28:10)
Após a ressurreição, Jesus chama seus discípulos de «meus irmãos» — um título novo, repleto de extraordinária ternura. E os envia de volta à Galileia, onde tudo começou, onde eram simples e pobres. O Ressuscitado não os envia para um lugar de glória, mas para o cotidiano. Você busca Cristo no extraordinário ou sabe como encontrá-lo na sua própria Galileia?
Senhor ressuscitado, tu me chamas de teu irmão. Essa afirmação me comove profundamente. Tu me envias de volta à minha vida comum para que eu possa te encontrar lá. Ajuda-me a reconhecer a tua presença na minha própria Galileia. Que o lugar das minhas origens seja também o lugar do meu reencontro contigo.
A estrada de terra que leva ao lago brilha sob o sol da manhã, e as redes ainda estão secando no barco.
✝ Referências bíblicas
1 trecho · 1 livro
Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. (Mateus 28:20)
O Evangelho do Rei: Jesus, o novo Moisés, cumpre as Escrituras para Israel e as nações.
→ Explore o Códice de Mateus- Ordena-me que eu vá ter contigo sobre as águas (Mt 14:22-33)
- Ele venderá tudo o que possui e comprará aquele campo (Mt 13:44-52)
- Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra (Mt 28:16-20)
- Proclamai o Evangelho a toda a criação (Marcos 16:15-20)
- Ele ressuscitou e vai adiante de vocês para a Galileia (Mt 28:1-10)
- Conceber Cristo no coração: o que Avitus de Viena transforma em nós.
- «Estou sempre convosco» — A presença de Jesus como resposta à angústia humana
- «Alegrai-vos»: a primeira palavra do Ressuscitado não é um gesto de cortesia.
- A manhã que não ousávamos esperar: quando a Páscoa brilhar através da nossa escuridão.
- Quando a aurora enxuga as lágrimas: a ressurreição como resposta a todo o sofrimento humano.
- Quando a Igreja se mantém firme no Sahel: os bispos de Burkina Faso e do Níger, pastores em tempos de guerra.
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